
Nova Era Politeísmo renovado
O
movimento da Nova Era com seus ensinos metafísicos de influência
oriental surgiu com uma proposta de um novo modelo de consciência moral,
psicológica e social
Por Morgana Gomes
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Muitos rituais pagãos foram absorvidos, modificados, renomeados e
incorporados pela Igreja Católica - que insistia em rotular a antiga
religião como bruxaria, "coisa do demônio". Era uma tentativa de impor a
crença a um único Deus poderoso que, por sua vez, punia aqueles que não
obedeciam a seus ensinamentos. A instituição chegou a torturar os
pagãos e criou a Inquisição para perseguir aqueles que não professassem a
fé católica.
Homens simples, mulheres parteiras, benzedeiras e os que conheciam
o poder das ervas, além dos chamados magos, sacerdotes e sacerdotisas
das diversas tradições pagãs foram reprimidos, tanto pela força da lei
quanto pelos radicais convertidos ao cristianismo.
Em meados de 1970, o movimento da Nova Era com seus ensinos
metafísicos de influência oriental, linhas teológicas e crenças
espiritualistas, animistas e paracientíficas surgiu com uma proposta de
um novo modelo de consciência moral, psicológica e social, visando a
integração e a simbiose com o meio envolvente, a Natureza e até o
Cosmos. Era o neopaganismo, que se espalhou pelos Estados Unidos, Reino
Unido, Europa de língua alemã - Escandinávia, Europa eslava, Europa
latina e outros países - e o Canadá.
Desde o princípio da humanidade, por sentir-se limitado perante a
natureza e até em relação aos próprios contemporâneos, o homem criou
deuses que poderiam lhe dar proteção. Essa concepção se espalhou,
contaminou os demais e, em pouco tempo, surgiram deuses de todas as
formas imagináveis: da agricultura, chuva, oceanos, fertilidade, guerra,
ventos, Sol, Lua etc.
Em paralelo, também foram aparecendo determinados esquemas que deram
concretude à espiritualidade pagã, cujas características principais
centravam- se na radical imanência divina (a divindade se encontrava na
própria Natureza - o que incluía os próprios humanos - e se manifestava
através dos seus fenômenos), na ausência da noção de pecado, de inferno e
do mal absoluto. Formou-se, então, a comunidade pagã que, ao evoluir,
acabou por adquirir o status de sociedade.
Nesse contexto, se por um lado a imanência dos deuses conferia à
divindade características antropomórficas, por outro, a relação entre os
homens e eles se dava de forma pessoal e direta. Logo, a ideia de
afronta à divindade também era tratada pessoalmente com o deus ofendido.
Esse tipo de relação conduziu ao não dogmatismo, que ainda conferiu
à religiosidade um traço quase que doméstico, vivenciado por pequenos
grupos com laços de sangue ou de compromisso. Assim, cada um podia
cultuar o seu Deus eleito da forma que desejasse, sem nenhum tipo de
imposição de terceiros.
Já em relação à ausência da noção de pecado, também não havia a
concepção de santidade nem de profano. Graças a esse fato, logo no
início, dispensou-se a construção de templos de reverência aos deuses,
mas não o estabelecimento de Sítios Sagrados que passaram a ocupar
bosques, poços, montanhas, entre outros lugares.
Em virtude dessas características, rapidamente, o calendário
religioso dos povos primitivos começou a se confundir com o calendário
sazonal e agrícola. Por conseguinte, essa correspondência também
estabeleceu o caráter de fertilidade e do eterno retorno a crença pagã.

O labirinto é um símbolo neopagão, que induz os
adeptos seguirem em busca da ancestralidade, trilhando um caminho já
percorrido por tantos outros. |
Ainda que, alguns povos tenham desenvolvido a ideia de um
"Outro Mundo", a vida pós-morte nunca foi um ideal pagão, pois isso
significaria ficar fora do ciclo natural e, portanto, da comunidade que
festejava seus deuses nos momentos de mudança e auge desses mesmos
ciclos. Dessa forma, o chamado "Outro Mundo" seria apenas uma passagem
da vida ao renascimento, no qual o encontro com a deidade se daria
sempre em comunhão com a Natureza.
Seguindo essa evolução, surgiram os Grandes Festivais, repletos
de rituais que comprometiam todos os membros de uma comunidade
específica em uma religiosidade mágica, na qual a espiritualidade era
alcançada pela manipulação da carne e dos elementos, através do corpo e
da natureza, nos chamados "feitiços".
Mas com a divindade representada no mundo terreno, também
não havia conflitos internos nem a necessidade de se dominar ou conter
impulsos naturais que, por sua vez, deveriam fluir livremente sem culpa.
Isso explica porque os pagãos - inclusive os atuais - valorizam mais a
vivência da religiosidade pelo corpo - em detrimento do espírito -, pois
a repetição dos mesmos ritos, sempre na mesma época, criaria uma união
mística com todos aqueles que já celebraram. Dessa forma, acreditava- se
que, ao presente, retornaria o momento primitivo da sua realização e
todos aqueles que, ao longo dos séculos, tenham participado dele. |
De acordo com essa proposição, apesar dos vários povos que
desenvolveram individualmente seus costumes religiosos, locais e
ancestrais, o que poderia se mostrar como diferença entre religiões,
apenas primava pelas características básicas do paganismo, que
permaneceu com todos os seus rituais típicos até os dias de hoje.
Rituais e dogmas
Com o advento do cristianismo e a oficialização da Igreja
Católica, embora muitos rituais pagãos tenham sido absorvidos,
modificados, renomeados e incorporados pela instituição religiosa, o
povo pagão, principalmente na Idade Média, se viu submetido entre
aqueles que ainda praticavam seus rituais. Alguns os faziam dentro das
próprias igrejas, erguidas em áreas que anteriormente eram ocupadas por
santuários pagãos, perante a concessão dos sacerdotes que, sem
alternativa, aceitavam tal condição para manter seu rebanho reunido.
Mesmo assim, a Igreja insistia em rotular os rituais praticados na
antiga religião como bruxaria, "coisa do demônio", na tentativa de impor
a crença a um único Deus poderoso que, por sua vez, punia e castigava
aqueles que não obedeciam a seus ensinamentos.

Grupo neopagão Ásatrúarfélagið a caminho de um ritual |
A instituição chegou a empreender torturas e campanhas militares
para alcançar seus objetivos, mas não satisfeita, ainda criou a
Inquisição para perseguir e punir todos aqueles que não professassem a
fé católica. Porém, ao mesmo tempo em que a Igreja transformava o
paganismo em sinônimo de satanismo, em nome do poder adquirido como
representante do Deus Uno, o clero exigia do povo tudo que desejava,
principalmente bens materiais. Dessa maneira, ele conseguia se sustentar
num luxo inacessível entre os que viviam quase que miséria nas
cercanias dos feudos e igrejas.
Na época, homens simples, mulheres parteiras, benzedeiras ou que
conheciam o poder das ervas contra certas doenças, além dos chamados
magos, sacerdotes e sacerdotisas das diversas tradições pagãs eram
reprimidos, tanto pela força da lei quanto pelas perseguições histéricas
dos radicais convertidos ao cristianismo.
Do século XV ao XVII, milhares de processos sob a tutela da
Inquisição percorreram tribunais eclesiásticos e civis por toda Europa e
até o Novo Mundo. Pessoas foram torturadas, executadas em fogueiras ou
afogadas; outras tiveram membros arrancados. Uma simples suspeita já era
motivo para a execução e todo conhecimento, considerado suspeito aos
olhos da Igreja, era motivo de perseguição. Sem alternativa, o povo teve
que se converter de forma aparente. No entanto, a semente do paganismo
permaneceu enterrada na consciência de muitos, apenas esperando o
momento certo de germinar e dar frutos novamente.
O advento da Nova Era
Passaram-se séculos, até que em meados de 1970, o movimento da
Nova Era com seus ensinos metafísicos de influência oriental, linhas
teológicas e crenças espiritualistas, animistas e paracientíficas
eclodiu com uma proposta de um novo modelo de consciência moral,
psicológica e social, que visava à integração e a simbiose com o meio
envolvente, a Natureza e até o Cosmos. Até então pressionados, alguns se
despertaram para a liberdade de culto e começam a reverenciar a
ancestralidade pagã. Mas ainda assim foram tidos como visionários,
quando não loucos.
Entre eles, a maioria era composta por mulheres, principal vítima
da Igreja Católica durante a Inquisição. Elas se irmanam em uma grande
variedade de movimentos religiosos modernos, que apresentam uma imensa
gama de crenças, incluindo o politeísmo, o animismo, o panteísmo e
outros paradigmas, nos quais, além de reinventaram rituais, se livraram
dos dogmas impostos pelas instituições religiosas oficiais. Com
determinismo, elas espalharam suas ideias e angariaram adeptos que,
diante dos muitos escândalos religiosos que acabaram por ser divulgados,
se viram traídos "pelo faça o que eu mando, mas nunca o que eu faço".

Ritual neopagão da vertente Wicca |
Com a ajuda da mídia, o retorno a ancestralidade e as crenças se
tornaram um fenômeno, principalmente entre aqueles que pertenciam às
classes sociais mais altas, tanto em termos financeiros, quanto
intelectuais. O movimento, então, recebeu o nome de neopaganismo e
contagiou, principalmente, os habitantes dos países mais desenvolvidos,
em especial os Estados Unidos e Reino Unido, mas também a Europa
continental (Europa de língua alemã, Escandinávia, Europa eslava, Europa
latina e outros países) e o Canadá. Segundo estatísticas, só nos
Estados Unidos há cerca de um terço de todos os neopagãos do mundo
atual, montante que representa aproximadamente 0,2% da população do país
e a sexta maior denominação não-cristã, depois do judaísmo (1,4%),
islamismo (0,6%), budismo (0,5%), hinduísmo (0,3%) e o Unitário-
Universalismo (0,3%).
Na Islândia, os membros do grupo neopagão Ásatrúarfélagið
representam 0,4% da população nacional. Por isso, traços e influências
do antigo paganismo nórdico ainda podem ser encontrados na cultura e nas
tradições de países modernos, tais como a Dinamarca, Suécia, Noruega,
Ilhas Faroé e Groelândia, bem como em todos os outros territórios que
receberam imigrantes dessas nações.
Na Lituânia, uma das últimas áreas da Europa a ser cristianizada,
muitas pessoas que não assimilaram totalmente o culto do Deus Único,
continuaram seguindo uma versão reconstruída da religião pré-cristã da
região, a Romuva. Na Grécia, desde 1990, o Supremo Conselho dos Gentios
Helenos institucionalizou o dodecateismo, também conhecido como
reconstrucionismo politeísta helênico, que visa reviver as práticas
religiosas que se originaram na antiguidade gloriosa do país
mediterrâneo.
Hoje, embora a maior religião neopagã seja a Wicca, outros grupos
adquiriram um porte significativo, como o Neodruidismo, o Neopaganismo
Germânico e o Eslavo. Entre os praticantes desses grupos, enquanto
alguns primam pela conexão com formas antigas do paganismo, numa
continuidade histórica marginal (à margem da religião que se
autoafirmava como única verdade no Ocidente: a cristã), outros
introduzem mudanças e inovações.
Mas apesar das diferenças elementares, em comum, todas as vertentes
apresentam tentativas de reconstrução, ressurgimento ou, mais
comumente, adaptação de antigas religiões pagãs do período pré-cristão
europeu a atualidade, porém sem se restringir somente a elas, em virtude
das experiências e das necessidades encontradas no mundo contemporâneo.
Sobre o termo neopaganismo
Usado para especificar o renascimento do paganismo na década
de 1970, ele é usado por acadêmicos e adeptos para identificar novos
movimentos religiosos que enfatizam o panteísmo e a veneração da
natureza ou que procuram reviver ou reconstruir os aspectos históricos
do politeísmo. Já os escritores eruditos empregam o termo "paganismo
contemporâneo", para designar todos os novos movimentos religiosos
politeístas, uso que foi favorecido pela publicação
The Pomegranate: The International Journal of Pagan Studies.
De certa forma, o termo neopagão ainda proporciona um meio de
distinção entre pagãos históricos de culturas politeístas antigas ou
tradicionais e os adeptos de movimentos religiosos modernamente
constituídos. Por sua vez, a categoria das religiões conhecidas como
neopagãs inclui desde abordagens sincréticas ou ecléticas (como as da
Wicca, Neodruidismo, Dianismo e Neoxamanismo) até aquelas mais ligadas a
tradições culturais específicas, como as muitas variedades de
reconstrucionismo politeísta (Helênico, Nórdico etc.). Nesse sentido,
alguns reconstrucionistas rejeitam o termo neopagão, porque pretendem
criar uma abordagem historicamente orientada para além do neopaganismo
mais eclético e geral.
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